A Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap) informou, nesta quinta-feira (22), que está investigando um caso suspeito de Candida auris — fungo conhecido como “superfungo” — identificado em um paciente de 58 anos internado no Hospital da Polícia Militar, em Natal. Como medida preventiva, o homem foi colocado em isolamento.
O alerta foi emitido após análises realizadas pelo Laboratório Central do Rio Grande do Norte (Lacen), que identificou indícios da presença do fungo. Trata-se do primeiro registro suspeito desse tipo no estado. A Candida auris preocupa autoridades sanitárias por apresentar resistência a medicamentos antifúngicos e atingir, principalmente, pessoas com o sistema imunológico comprometido, especialmente em ambientes hospitalares.
De acordo com a Sesap, o Lacen comunicou a suspeita na última terça-feira (20). A confirmação definitiva depende de um exame genético que será realizado por um laboratório de referência em São Paulo. Até o momento, não há previsão para a divulgação do resultado. O Hospital da Polícia Militar também informou que o caso foi oficialmente notificado ao Ministério da Saúde.
Paciente está “colonizado”
Segundo o médico infectologista Eduardo Teodoro, que acompanha o caso no Hospital da PM, o paciente não apresenta infecção ativa pelo fungo, mas sim um quadro de colonização.
“A infecção acontece quando o micro-organismo está causando doença no paciente. Já a colonização ocorre quando o fungo está presente na pele ou em algum local do corpo, mas sem provocar doença”, explicou.
“Quando há infecção, fazemos o tratamento antifúngico. Quando é colonização, a principal medida é a prevenção, para evitar a disseminação dentro do ambiente hospitalar. É exatamente o que está sendo feito”, completou.
O paciente foi internado no dia 16 de janeiro com diagnóstico de insuficiência cardíaca. Durante os exames de rotina, foram coletadas amostras laboratoriais e, no dia 20, por volta das 13h, surgiu a suspeita da presença do fungo. Mesmo antes da confirmação oficial, o hospital adotou protocolos recomendados pela Anvisa, incluindo isolamento por contato, reforço das medidas de higiene e orientação às equipes de saúde.
Ainda segundo o infectologista, o quadro clínico do paciente é estável e apresenta melhora progressiva. Ele deve permanecer internado por mais alguns dias para continuidade do tratamento clínico, uso de antibióticos e realização de exames complementares.
Fungo raro e resistente
A Candida auris é considerada um fungo emergente e ainda pouco comum no Brasil, com registros anteriores em estados como Bahia, Pernambuco e Minas Gerais. Em casos de infecção, pode evoluir para quadros graves e até fatais. Caso a suspeita seja confirmada, este será o primeiro registro no Rio Grande do Norte.
Apesar da investigação em andamento, o secretário de Saúde do estado, Alexandre Motta, afirmou que não há motivo para pânico entre a população. Segundo ele, o foco das autoridades é impedir a transmissão do fungo para outros pacientes.
“A preocupação em relação a esse fungo é que ele tem uma capacidade biológica de produzir uma coisa chamada biofilme, que é como se fosse uma película que faz com que os antifúngicos não consigam penetrar nele. E ele fica naquele ambiente onde ele está contaminante. Até os antifúngicos excepcionais têm pouquíssimo efeito”, explicou o secretário.
Ainda de acordo com Motta, a capacidade de infecção do fungo é considerada baixa, e todos os profissionais envolvidos no atendimento estão utilizando equipamentos de proteção individual descartáveis para evitar qualquer risco de disseminação.
Histórico no Brasil
A Candida auris foi identificada pela primeira vez em 2009, no Japão, a partir de uma amostra coletada no ouvido de uma paciente hospitalizada. No Brasil, o primeiro caso suspeito foi notificado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em dezembro de 2020, na Bahia. Desde então, surtos foram registrados em diferentes regiões do país.
Em alerta emitido após o primeiro registro nacional, a Anvisa classificou o fungo como uma “séria ameaça à saúde pública”, destacando fatores como a resistência a múltiplos antifúngicos, a possibilidade de causar infecções invasivas e fatais, a permanência prolongada no ambiente hospitalar e a dificuldade de identificação por métodos laboratoriais convencionais.
Um documento publicado em 2023 pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal aponta que os principais fatores de risco para a Candida auris incluem internação em UTI, hospitalizações prolongadas, uso de cateteres e dispositivos invasivos, cirurgias recentes, tratamento prévio com antifúngicos, imunossupressão e doenças como diabetes.




















